Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

anotações desses dias

fui alguns dias à biblioteca da Faculdade de Letras - UFMG e enquanto esperava dar a hora de alguns compromissos, ia até a estante começar a conhecer melhor Mia Couto. Como toda vez me dá vontade de anotar algo legal – porque senão eu esqueço – quando leio, assisto à tv, vejo filmes em dvd ou ouço pela rua, agora faço isso na minha vida: estou sempre com um papel, seja um bloquinho, uma agenda ou mesmo um pedaço que arranjo, e um lápis ou caneta. Assim, anotei algumas coisas de um livro que li pela primeira vez e de um filme que vi pela segunda. O livro é Estórias abensonhadas (1994), do escritor mencionado; o filme, Chocolate (2000).

"nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam." 
Nas águas do tempo

"só a água lava tristeza."
"encerrado como um parágrafo"
O perfume

"Enfim, meu gosto de visitar as igrejas vem apenas da tranquilidade desses lugarinhos côncavos, cheios de sombras sossegadas. Lá eu sei respirar. Fora fica o mundo e suas desacudidas misérias."
A velha engolida pela pedra

____
"Nossa bondade não se mede pelo que não fazemos, pelo que negamos a nós mesmos, o que resistimos e a quem excluímos. Nossa bondade é medida por aquilo que abraçamos, pelo que criamos e por quem incluímos."
Chocolate





quarta-feira, 27 de outubro de 2010

reflexão em momento de fechamento de ciclos


Monografia finalizada e me deparo com uma discussão inesperada. Lidar com classificações não é interesse da minha pesquisa, cujo tema é a leitura de uma obra escrita e ilustrada pelo artista plástico Fernando Vilela. Reconheço a importância dos conceitos para nortear os estudos e ajudar na compreensão das questões investigadas nas diversas áreas do conhecimento. Porém, meu objetivo foi procurar fundamentações teóricas para meu delírio ao experimentar essa obra. Tendo perto de mim a sabedoria[1] generosa da minha orientadora, viajei intertextualmente e aterrissei quando ela sinalizou. Por outro lado, fui impulsionada a desenvolver ideias explicitadas em apenas uma linha, quando mereciam um parágrafo. 

O movimento de sair da minha faculdade de origem, a FALE-UFMG (Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais) e entrar em outras unidades, outras bibliotecas, outras festas, auditórios, banheiros, salas e cantinas sempre fez parte do meu modo de viver a graduação. Entrei muitas vezes “na Música” e “na Belas Artes”, onde, inclusive, cursei disciplinas, como “Introdução à Intermidialidade”, em que cada aula era ministrada por um professor diferente. O trajeto de grandes ladeiras e escadarias que levam à FaE (Faculdade de Educação) foi percorrido durante os quatro anos, para chegar aos meus locais de estágio. Me interessa tudo o que acontece no campus: apresentações musicais sob a tenda da praça de serviços, espetáculos teatrais no gramado da reitoria, comunicações de grandes nomes como Maria Bethânia e Mia Couto e até mesmo a ocupação da reitoria pelos estudantes, registrada por mim em três posts[2] de meu blog da época e de cujas assembleias tomei parte. 

Dessa forma, me deslocar, ser nômade, sair da minha zona de conforto nunca foi um problema. Ao contrário, é o que busco. Romper não me faz estremecer, a não ser de avidez pelo novo. Conto, então, brevemente, que saio da casa de meus pais aos dezoito anos para morar em uma cidade (aliás, um estado) onde não possuo nenhum familiar sequer. Tive uma única briga com minha mãe, que queria que eu usasse salto alto e eu respondi que gostava de arrastar o pé descalço no chão do forró. Não tive medo de “chutar o balde”, como se diz, e cancelar meu registro no CRO (Conselho Regional de Odontologia) após sete anos de profissão e ir fazer Letras. Além disso, saí novamente da casa de meus pais, que nesse momento – e ainda hoje – moravam em frente ao mar para entrar em um apartamento sozinha com minhas roupas e sapatos, sem geladeira, sem fogão, e dormir sobre um edredom. A relação com meus pais sempre foi de amizade e respeito, mas eu queria minha liberdade e neles encontrei apoio.

A maior parte de meus amigos é artista e eu os conheci em um sarau, antes de ir fazer Letras. São ceramistas, poetas, artistas plásticos, designers, músicos, escritores. São Tiemi Daiten, Penha Schirmer, Renato Fraga, Cida Ramaldes, Alfredo Albuquerque, Danuza Menezes, Pedro Gazu, Bith... com eles conheci Manoel de Barros, Duchamp, Viviane Mosé. Ampliei meu mundo, me apaixonei ainda mais. Com eles dancei, falei e ouvi poesia, chorei de rir, conversei a sério, viajei para Itaúnas, Caraíva, Sana. De carro. Ouvindo música. Lendo versos como o do para-choque de caminhão que passou por nós na estrada da Bahia: “Ser livre é pouco para mim. O que eu quero é nem ter nome”.

Portanto, encaixar qualquer forma de arte em prateleiras, gavetas, escaninhos, etiquetando-as, para mim é uma forma de repressão, de restrição. Tudo se comunica, especialmente no século XXI, em que muitos paradigmas já caíram por terra e as diversas mídias se inter e intra relacionam. 

Quando um artista afirma que a ilustração é literatura, de imediato eu concordo. Depois paro, penso, lembro de artigos e livros com os quais aprendi e lanço minha indagação. Talvez tenham ouvido como se fosse uma asserção. Fato é que comecei hoje a pensar o diálogo entre a imagem e a palavra (texto visual e texto escrito) como um casamento. Duas pessoas com características próprias que se unem por afinidades, para conversar, dialogar, discutir, namorar, trocar, compreender, curtir. Mas elas têm sua individualidade, atenção! Uma não é chamada pelo nome da outra. Nesse sentido, o paralelo que faço é para dizer que o texto – entendido aqui em sentido amplo, sem considerar apenas o texto escrito com o código alfabético, mas pensando em vídeo, cinema, imagem, entre outros – visual, quando chamado de literatura, talvez esteja sendo submetido à hegemonia atribuída pela sociedade ocidental à cultura escrita, ao texto verbal. No meu modo de entender, após algumas leituras teóricas para produção da monografia, as artes possuem suas características peculiares e formas, tanto de serem realizadas como de serem recebidas, haja vista que não vemos todas as imagens da mesma forma; há os diferentes “trajetos do olhar”, conforme a obra com a qual se tem contato, como nos ensina Rui de Oliveira.

Saber o que é literatura, por exemplo (se escreve com maiúsculas ou minúsculas?), não foi uma grande preocupação de minha formação e sobre o assunto só ouvi no primeiro período do curso, ao ser introduzida à teoria literária, ou adiante, quando a pergunta surgiu em uma bela aula de literatura estrangeira de língua portuguesa. Talvez a explicação mais clara tenha sido dada pela Professora Graça Paulino, ao explicar que, para saber a resposta, vejamos se, em determinado texto, o que predomina é o discurso literário, entre os discursos que ali permeiam.

Deixando tal tarefa (a de classificar) para outros pesquisadores, torno a relacionar arte com liberdade. Ao fazer isso, logo me vem à mente novo turbilhão de palavras com as quais poderia ligar (ou link-ar?) a literatura: alternativa, diversidade, periferia urbana (nome de disciplina em curso com a Profa. Vera Casa Nova), resistência[3], erotismo, imagem. Ôpa! Imagem. Imagens. As palavras, tratadas no photoshop do escritor, por meio da técnica e da labuta com elas travada, como escreveu Drummond no poema “O lutador”, podem produzir imagens. 

No entanto, há certos acontecimentos que não podem ser descritos em palavras, como já diz a música cantada pelo Rei (ou Robertão, como queiram): “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras, não sei dizer” e a de Zeca Baleiro: “eu não sei dizer / o que quer dizer / o que vou dizer”. Assim, as imagens, com suas características próprias, aliadas ao traço pessoal do artista, expressam ideias e proporcionam sensorialidade. Aí está um ponto fundamental de minha interrogação sobre a atribuição do nome “literatura” ou “texto literário” à ilustração: a potencialidade para provocar sensações. Buscando a distinção entre os significados de “literatura” e “lirismo”, entre “lírico” e “literário”, mesmo que em uma fonte não especializada, mas procurando mesmo um sentido corrente, encontro:
LITERATURA Sf 1 arte de compor ou escrever trabalhos em prosa ou verso com o objetivo de atingir a sensibilidade ou a emoção do leitor ou do ouvinte 2 disciplina que tem por tema as obras ou os autores literários 3 atividade literária 4 conjunto de obras literárias
LIRISMO Sm 1 subjetivismo poético 2 emotividade; ardor 2 caráter subjetivo ou romântico da arte
LÍRICO Adj 1 relativo à expressão dos arrebatamentos pessoais e entusiasmos subjetivos 7 aquilo que é poético ou emotivo
LITERÁRIO Adj 1 relativo às letras e literatura em geral, ou à cultura relacionada com a arte da palavra 2 de literatura 3 de obras de literatura 4 de pessoas cuja atividade está ligada à literatura 5 que denota aptidão para a literatura
(BORBA, 2004, p.848-849)

Diante do significado desses termos, tendo a compreender a ilustração como um texto visual lírico, uma composição artística cujo feitio traz para si, como na literatura, referências pessoais, técnica, subjetividade, estética... então, imagem e texto verbal, juntos, dão como resultado uma produção de arte em que vários estímulos são proporcionados ao leitor, por meio de recursos expressivos responsáveis pelo efeito que a obra produz no ser humano.


[1] De acordo com o Dicionário UNESP do Português Contemporâneo, organizado por Francisco Borba (2004): SABEDORIA Sf 1 habilidade de ver com clareza o que é verdadeiro e certo, e de fazer julgamentos corretos com base nessa habilidade 2 capacidade de avaliar adquirida pelas experiências ao longo da vida 3 conhecimento formal acumulado 4 alto grau de conhecimento; instrução vasta e variada; erudição 5 conhecimento justo das coisas; razão 9 comportamento sábio; bom senso 10 eficiência; competência; traquejo. (os exemplos foram omitidos).
[3] en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas
(Paulo Leminski)

sábado, 9 de outubro de 2010

ocupação urbana


Estou lendo Cidade Ocupada*, para uma disciplina de Letras: Literatura brasileira e periferia urbana, que curso nas noites de sexta. Quando bati o olho na capa do livro, imaginei que fosse um romance, talvez policial, e que a cidade estaria ocupada pelo crime, pelo tráfico de drogas. Imaginei ainda que o autor fosse um morador da periferia, como o Renegado, que esteve em uma de nossas aulas lá na fale-ufmg. Mas a ocupação de que trata a obra é artística e o escritor é professor universitário com pós-doutorado. Ainda não terminei de ler, mas algumas questões interessantes me chamaram a atenção, como a produção de algo que seja a própria diferença, algo que não enverede pela homogeneização, tão presente no mundo contemporâneo, apesar de tantas transformações tecnológicas e ideológicas pelas quais a civilização já passou.

Ontem, por recomendação da genial Profa. Vera Casa Nova, fui ao duelo de MCs no viaduto Santa Tereza. Um parêntesis: ainda bem que tenho amigas que curtem programas alternativos, porque a Bi, minha irmã, faz muita falta nessas horas! Bom, fomos lá e foi fantástico! As duplas sobem ao palco e fazem um minuto (se não me engano) de 'repente' ou improviso. As falas são sempre relacionadas a questões políticas e sociais como a segregação de classes, a voracidade capitalista etc. O público é convidado a votar por meio de aplausos no melhor de dois e depois de todas as apresentações, há uma final. Quando tudo acaba, começa a exibição de dança hip-hop no meio de uma roda formada no chão, entre a plateia.

Boas fotos podem ser vistas aqui 
Lembrando um documentário ao qual assisti e vou procurar na internet, quanto mais as pessoas com maior poder aquisitivo se separarem do mundo real, da 'parte feia' da cidade e da cultura popular, mais a cidade ficará violenta porque nada estará sendo feito para, de fato, fortalecer a segurança. Isto se consegue, a meu ver, entre outros fatores, com valorização e afirmação da diversidade e aproximação com os que não têm ou quase não têm oportunidades de acesso à educação, à informação de qualidade, às novas tecnologias de informação e comunicação, enfim, aos alimentos do corpo e aos alimentos da alma, como a arte.




*PIRES, Ericson. Cidade Ocupada. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
Foto: daqui

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A lírica trovadoresca

Esse é o título do livro pelo qual estou encantada. Transcrevo um trecho de poema do trovador Cercamon (século XII).

II - 6

O amor é doce quando chega ao coração, mas amargo quando se despede, pois hoje vos fará chorar, amanhã vos traz alegre ou desequilibrado; sim, do amor tenho experiência; quando mais supunha está-la servindo, mais mudável comigo se mostrava.


SPINA, Sigismundo. A lírica trovadoresca. São Paulo: Edusp, 1996.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

achado

não me lembrava, mas relendo o livro... o município de Serra aparece em Macunaíma, de Mario de Andrade! Digo isso porque passei muitas férias indo à praia de Jacaraípe, na Serra, morei em Vitória, onde meus pais e irmã moram (capital do estado, pertinho). A minha praia preferida por lá é Manguinhos.

"Adiante da cidade de Serra no Espírito Santo quase arrebentou a cabeça numa pedra com muitas pinturas esculpidas que não se entendia. De certo era dinheiro enterrado...Porém Macunaíma estava com pressa e frechou pras barrancas da ilha do Bananal."
(capítulo VI-A francesa e o gigante)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

biografema

hoje eu acessei a programação do festival de inverno da ufmg e adorei as oficinas de artes literárias. fiz uma disciplina sobre a obra da escritora Maria Gabriela Llansol com a Profa. Lucia Castello Branco e  foi uma experiência super prazerosa, muito boa. gosto bastante do jeito da Lucia de ver o mundo, de dar aula, de estudar literatura e admiro a atitude dela de se lançar às artes (dirige filmes, vídeos, enfim). um teórico com quem ela se identifica é o Roland Barthes. vou tentar ler alguns textos dele, ainda não li nada.

bom, mas a noção de biografia se relaciona com o fato de a pessoa escrever sobre si em determinado momento, tendo em vista certas lembranças apenas, e não a completa lembrança sobre sua vida. Dessa forma, ele omite alguns fatos, muitas vezes conscientemente, configurando, assim, uma escrita de ficção.

por biografema, está escrito na apresentação da oficina do festival, entende-se ser o que resta do sujeito em sua escrita de vida.

interessante!

(mas na data do festival, se tudo der certo, estarei em outras bandas, beeeem lá pra cima!)
ops! ficou parecendo confissão de suicídio? estarei bem lá pra cima das bandas do Brasil, tá bom?

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Miscelânea da diferença



Esse é meu objeto de pesquisa. E é sobre a diversidade cultural e sua assimilação que ele fala, ao menos  sob meu ponto de vista. 
Fernando Vilela é um artista de cujo trabalho eu gosto muito. Ele interfere no espaço urbano com sua arte, fundindo as duas coisas, por exemplo, ao expor na parede da galeria, faz com que o traço tenha continuação na sanca do teto. Cola uma gravura na parede de um edifício, provocando a sensação de que ela seja uma nova janela. Uma das obras que achei mais lindas e impactantes foi a de colagens com fita crepe, que ele realizou em parceria com Stela Barbieri, em que 'reproduzem' os fios elétricos urbanos.
Lampião & Lancelote é o primeiro livro em que ele é autor e ilustrador e recebeu as mais importantes premiações em literatura infantil e juvenil: Jabuti, FNLIJ e Feira de Bolonha.
Mesmo antes de o livro ser premiado, quando ele entrou para participar do prêmio da Fundação (FNLIJ), eu era estagiária do GPELL, grupo votante no processo. E aí, eu recebia os livros das editoras, carimbava, cadastrava e distribuía aos avaliadores. Esse livro foi um dos que me deu dó de carimbar, aliás, acho que nem carimbei, expliquei à coordenadora do grupo que ele era preto, e tal, que não tinha espaço para carimbar! E eu lembro que me encantei com a obra, com as imagens, com a narrativa escrita, com o projeto gráfico, enfim.
Taí um livro que é uma obra de arte para ser apreciada por adultos, não apenas pelo público  majoritariamente pretendido.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Tempo

Tic-tac, tic-tac
Correm os ponteiros implacáveis
Barulho insano, martelar
Silencioso de saudade, solidão.

Mão de ferro, fecha em meu peito
A dor do tic-tac, tic-tac
Sem forças contra os ponteiros
Que avançam, avançam,
Orgulhosos, qual general
Que ganhou batalha!
Passam à frente de toda dor
Indiferentes, autônomos, incansáveis!


Maria José Nogueira Fábregas - Dedé



Eu recebendo dedicatória da tia Dedé no lançamento de seu livro, sexta-feira.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Capítulo CXLII

Sofia deixou-se estar ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas, e não lhe disseram coisa diferente. Há desses acertos maravilhosos. Quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de ideias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra. A expressão: "Conversar com os seus botões", parecendo simples metáfora, é frase de sentido real e direto. Os botões operam sincronicamente conosco; formam uma espécie de senado, cômodo e barato, que vota sempre em nossas moções.

microconto

e aqui um dos trechos de que falei (de Quincas Borba)...eu disse que neste livro, de Machado de Assis, notei que alguns capítulos são quase que independentes, são pequenos contos.

Capítulo XLVI

O rumor das vozes e dos veículos acordou um mendigo que dormia nos degraus da igreja. O pobre diabo sentou-se, viu o que era, depois tornou a deitar-se, mas acordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no céu. O céu fitava-o também, impassível como ele, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um céu claro, estrelado, sossegado, olímpico, tal qual presidiu às bodas de Jacob e ao suicídio de Lucrécia. Olhavam-se numa espécie de jogo do siso, com certo ar de majestades rivais e tranquilas, sem arrogância, nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao céu:
- Afinal, não me hás de cair em cima.
E o céu:
- Nem tu me hás de escalar.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

lendo

não tinha reparado...acho que da primeira vez que li Quincas Borba (Machado de Assis), não percebi que alguns capítulos são microcontos, isto é, podem ser lidos independentemente da obra e fazer total sentido, com início, meio e fim. Marquei uns dois que são assim.

Depois transcrevo aqui.

segunda-feira, 15 de março de 2010

um sonho bom

Sempre sonho com algo que aconteceu no meu dia, ou com algum assunto ou pessoa sobre os quais falei durante o dia.

Esta noite, sonhei com o Drummond.

Nem tinha pensado nele ou mencionado seu nome...

Tenho na minha estante uma foto de nós dois em Copacabana. Eu, pele. Ele, bronze.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

alteridade

Minha angústia era aceitar os diversos em seus ritmos sincopados. A menina feia, com seus jasmins; o menino lindo, com sua hipnose. A peruona espanhola com sua britadeira de partir o dia a dia. As pessoas que valem a pena são assim: têm traços transparentes. Não se medem pelas cores nem pelos apetrechos. Elas nos inquietam sem usar os peitos ou as nádegas. Elas não somem da memória. O menino mais bonito que eu já conheci tinha um olhar tão doce que eu não lhe sabia a cor dos olhos. E ele me fez agrados tão bonitos que não guardei-lhe as medidas. Até hoje, e sempre, o que me faz lembrar dele é um beijo de olhos fechados, no meio da tempestade de vento, e um armário cheio de chocolates.

ana elisa ribeiro

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Literatura infantil

Trabalhando no GPELL (Grupo de pesquisa do letramento literário), no processo de premiação da FNLIJ (Fundação nacional do livro infantil e juvenil), tive contato com diversos livros e conheci o trabalho de vários ilustradores. A que mais me chamou a atenção foi Angela-Lago, mas outros também são muito bons, como André Neves e tantos outros.
Quero dar um pulo ali:


Exposição revela a magia das ilustrações de livros infantis


As cores vibrantes e formas inusitadas presentes nas ilustrações de livros infantis poderão ser admiradas em uma exposição que a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte (BPUJ-BH) recebe, a partir de quinta-feira, dia 4. A quarta edição da mostra “Cores e Formas que Contam Histórias” apresenta o trabalho de 25 ilustradores de literatura infantil e juvenil de diferentes técnicas e estilos. A promoção é da Prefeitura, por meio da Fundação Municipal de Cultura e da biblioteca, que fica na rua Carangola, 288, no bairro Santo Antônio.

A mostra é organizada pela Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ). A intenção dos ilustradores é encantar o público leitor com as imagens, cores e formas que integram livros infantis e juvenis publicados entre 2007 e 2009 no mercado brasileiro e no exterior. O objetivo da exposição é mostrar a beleza e a importância das ilustrações nos livros de literatura para crianças e jovens.

A exposição “Cores e Formas que Contam Histórias” participou do 11º Salão do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro, da 55° Feira do Livro de Porto Alegre, e da 25° Feira do Livro de Caxias do Sul. A mostra pode ser visitada na BPIJ-BH até o dia 27 de março, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30, e nos dias 27 e 28 de fevereiro, 20 e 21 de março, sábado e domingo, de 9h30 às 12h15.

Associação

A Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil iniciou suas atividades em 1999 com o objetivo de estimular a união de autores, escritores e ilustradores de literatura infantil e juvenil pela defesa dos seus interesses e direitos dentro do mercado editorial e, também, para a troca de experiências e informações entre os profissionais através de uma lista de discussão.

Em 2009, a associação comemorou 10 anos promovendo uma série de eventos de estímulo à leitura, entre eles, o lançamento da quarta edição da exposição "Cores e Formas que Contam Histórias", com a participação recorde de 25 ilustradores de todo o país.

Fonte: portal pbh


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

São Francisco de Assis

São Francisco de Assis nasceu na Itália, no século XII (1181). Ele deixou todas as coisas desnecessárias à sobrevivência e à relação com a natureza, para viver em pobreza e em harmonia com o próximo. Foi um santo, diríamos, engajado na causa ecológica, por isso, conhecido pelo respeito aos animais. Os estigmas em seu corpo lembram os de Cristo crucificado, daí ele ter sido chamado de "alterchristus", ou o novo/outro Cristo. Teve uma relação próxima com Santa Clara, a qual fundou a ordem franciscana feminina.

Foi uma das coisas mais bonitas que já vi, a apresentação em voz e violão da música de Vinícius de Moraes por dois alunos da ufmg: Fernando Noronha e Kleber Pontes, dentro da programação do evento Fratello Sole, Sorella Luna: Francisco de Assis ontem e hoje, na Letras-ufmg. Era assim que ele se dirigia aos elementos da natureza: irmão Sol, irmã Lua, irmão vento...

Bonita também a legenda que os alunos do italiano fizeram para uma ópera que representa a vida de "San Francesco". Está sendo muito boa a semana, com presenças especiais, como Ronald Claver e pessoas que conheci (Juliana e José).



O cântico ao irmão Sol

Altíssimo, onipotente e bom Senhor, a ti subam os louvores, a glória e a honra e todas as bênçãos!
A ti somente, Altíssimo, eles são devidos, e nenhum homem é sequer digno de dizer teu nome.
Louvado sejas, Senhor meu, junto com todas tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, que é o dia e nos dá a luz em teu nome.
Pois ele é belo e radioso com grande esplendor, e é teu símbolo, Altíssimo.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã lua e as estrelas, as quais formaste claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão vento, e pelo ar, pelas nuvens e o céu claro, e por todos os tempos, pelos quais dás às tuas criaturas sustento.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão fogo, por cujo meio a noite alumias, ele que é formoso e alegre e robusto e forte.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã, nossa mãe, a terra, que nos sustenta e nos governa, e dá tantos frutos e coloridas flores, e também as ervas.
Louvado sejas, Senhor meu, por aqueles que perdoam por amor a ti e suportam enfermidades e atribulações.
Benditos aqueles que sustentam a paz, pois serão por ti, Altíssimo, coroados.
Louvado sejas, Senhor meu, por nossa irmã, a morte corpórea, da qual nenhum homem vivo pode fugir.
Pobres dos que morrem em pecado mortal! e benditos quem a morte encontrar conformes à tua santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai todos vós e bendizei o meu Senhor, e dai-lhe graças, e o servi com grande humildade!




sábado, 24 de outubro de 2009

escrita llansol

Caminhando na leitura de finita e prestes a escrever um texto sobre o livro, deixo um fragmento.

"[...] às vezes, sinto-me destruída, no meu destino, pelas coisas ferozes de uma realidade social a que, no íntimo, nunca aderi."

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Grande

Posto hoje um texto que escrevi no escritabrasil porque hoje o Arnaldo Antunes esteve na ufmg, mas fiquei com preguiça de multidão.
Um beijo.

Ver o Arnaldo Antunes recitando seus poemas, cantando suas músicas e conversando sobre seu processo de criação, ao vivo, esta noite, foi um grande privilégio.
O artista cumprimentou o público presente no Ofício da palavra, no Museu de Artes e Ofícios, de forma muito receptiva, transmitindo conforto e certa informalidade. Ao falar seus textos, marcava o ritmo com a cabeça, um jeito particular, assim como sua voz, tão característica e inconfundível.
Ele fala de sua conexão com a escrita de uma forma prazerosa, como se esta relação fosse tranquila para ele, mais até do que a relação com a música, enquanto instrumentista. Ele contou que, por volta dos doze anos, escrevia e fazia aulas de violão e, hoje, em seus shows, prefere apenas cantar, pois o instrumento o deixa um pouco preso. Neste sentido, ele diz, seria mais um compositor do que um músico. Para que as palavras pudessem alcançar “algo mais”, ele julgou interessante que elas fossem entoadas e, muitas vezes, uma poesia lida não faz tanto sucesso quanto a musicada. Por outro lado, uma bela poesia pode não combinar com certa melodia e o processo de transformá-la em canção vem a falhar.
Arnaldo Antunes ressaltou a importância do trabalho formal, além da inspiração e emoção. “Através do trabalho é que se consegue emocionar”. Ele usou o termo “labuta” ao se referir ao que seria o “corpo a corpo com a linguagem”. Mencionou que é necessário tirar o que está sobrando, por meio de uma subtração. A escrita seria um processo de constante refazer, em busca de clareza e concisão.
Um dos poemas escolhidos por ele para ser falado foi postado aqui no blog em 18 de fevereiro. Outro, “virou” poema visual depois de ser música: O quê. Seguindo a trajetória de um círculo, em que está escrita toda a letra da música, é possível cantá-la, parando em qualquer ponto e retomando a leitura circular de conteúdo vazio e filosófico, segundo o autor, uma vez que não é o que não pode ser que não é(...) não diz nada e forma um círculo que questiona os limites da linguagem.
Sobre influências e preferências pessoais, citou Manuel Bandeira, Oswald, João Cabral e outros. A poesia concreta o marcou pelo fato da incorporação da imagem, o que também acontece agora, com a tecnologia, a qual possibilita que um único recurso gere imagem (foto), som, texto e vídeo (movimento): o computador. Se antes o livro era para ser lido, a música para ser ouvida e as artes plásticas para serem vistas, hoje há a interface entre as mídias.
Questionado sobre o conceito de língua, com base na possível proibição de palavras em inglês na língua portuguesa, proposta de um político brasileiro, responde que "a língua é uma matéria mutante". Cabe aos falantes permitir ou não a permanência das palavras.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Poesia digital



Este poema foi feito a mão com muito custo (rsrs) em uma das oficinas de artes literárias do Festival de inverno da UFMG que rola agora, neste exato momento, em Diamantina. O poema é de minha autoria e sua tradução para o meio digital foi realizada por meio do programa FlashCS4, usando recursos de fotografia feita com câmera de um telefone celular e áudio captado com gravador em mp3. Eu não conhecia o flash e, então, recebi a preciosa ajuda das professoras Ana Paula Ferreira (faz doutorado na UFMG orientada pela Prof. Vera Casa Nova) e Audrei Carvalho (artista visual de São Paulo, estudou poesia concreta no mestrado).

Agradeço ao Jackson, por ter feito a voz e à Carolina, por ter tirado as fotos e desenhado o 'rabisco' junto comigo lá na quadra da escola estadual!

Valeu demais a experiência, confesso que pensei em desistir, voltar para Belo Horizonte, mas deixar um desejo incompleto...não. Agora, pelo menos sei como pedir um help a alguém mais experiente quando for começar um novo projeto como esse. E por ser o primeiro passo, considero que não está maduro o suficiente, mas é uma grande alegria e evoluirá. Sempre coletivamente.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Capitu

Foto Minha: Largo do Boticário, Rio de Janeiro

Estou a três páginas de terminar Dom Casmurro, que ganhei da Bi, de aniversário.
Já havia lido no colégio, mas achado chatíssimo, como diria José Dias. É que, naquela época, eu não me deliciava nas aulas de Literatura (rsrs). Passados alguns anos, eis que estudarei "Estudos Temáticos de Literatura Brasileira: Teoria do Romance em Machado de Assis", a partir de março.

Sobre a minissérie, lembrei de um comentário que pode ser do Herbert Vianna, veja bem, pode ser, porque não quero coisas com processos... como (argh!) enchem o saco por aí... bom, sei que uma voz disse:
-A Ivete Sangalo canta lindamente, é ótima, o que estraga é o repertório.
Divagando aqui e comparando a dita cuja com a Rede Globo (para quem ela trabalha, não?), eu diria que a emissora é excelente (aliás, já comentei com minha amiga jornalista Regina Célia que, às vezes, a imagem de todos os canais está fora do ar, chuviscando, passando aquelas listras, e aí, eu passo para a Globo, para tirar a teima, e a danada tá lá, com a imagem nítida, linda de morrer, sem um pontinho na tela). Pois, é, além da tecnologia, ou sei lá o que é aquilo, tudo é muito bem feito, bem produzido... o que estraga é o repertório, ou melhor, a programação.

Mas hei de admitir que as minisséries são ótimas. E, então, alertada pela Bi, fui assistir a Capitu. Mas se você gostou tanto quanto eu, me diga onde se encontra o dvd, porque procurei no site e não há ainda.

Há uma música que adoro, cantada pela Ná Ozetti, escrita pelo Luiz Tatit. Olha que linda!

De um lado vem você com seu jeitinho Hábil, hábil, hábil E pronto! Me conquista com seu dom
De outro esse seu site petulante
WWW ponto poderosa ponto com
É esse o seu modo de ser ambíguo sábio, sábio E todo encanto Canto, canto
Raposa e sereia
Da terra e do mar Na tela e no ar
Você é virtualmente amada amante

Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante

Um método de agir que é tão astuto Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular

Capitu

A ressaca dos mares

A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu

A mulher em milhares

Capitu
De um lado vem você com seu jeitinho Hábil, hábil, hábil E pronto!
Me conquista com seu dom

De outro esse seu site petulante
WWW ponto poderosa ponto com
É esse o seu modo de ser ambíguo sábio, sábio E todo encanto Canto, canto
Raposa e sereia
Da terra e do mar

Na tela e no ar

Você é virtualmente amada amante

Você real é ainda mais tocante

Não há quem não se encante

No site o seu poder provoca o ócio, o ócio Um passo para o vício, o vício, o vício
É só navegar, é só te seguir, e então naufragar

Capitu
Feminino com arte
A traição atraente

Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site

Capitu
De um lado vem você com seu jeitinho Hábil, hábil, hábil E pronto!
Me conquista com seu dom

De outro esse seu site petulante
WWW ponto poderosa ponto com
É esse o seu modo de ser ambíguo sábio, sábio
E todo encanto Canto, canto
Raposa e sereia
Da terra e do mar

Na tela e no ar

Você é virtualmente amada amante

Você real é ainda mais tocante

Não há quem não se encante
Um método de agir que é tão astuto
Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular

Capitu

A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu
Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site
Capitu

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Peixe morto



Ontem, quando lia este livro, tive uma sensação de prazer com a Literatura como contáveis vezes tenho ao ler um romance.

A lírica nos oferece um deleite, vamos dizer assim, mais imediato e a narrativa em conto, de certa forma, também. Gosto muito de poesia, mais ainda depois de frequentar o sarau O quinze (em seus bons tempos), em Vitória e ouvir e ver Renato Fraga, Cida Ramaldes, Waldo Motta, Miro, etc. O conto é um gênero textual que gosto de escrever. Não sei escrever muito, desenvolver as idéias na hora da prova, essas coisas. Sou objetiva (sem querer dizer que isso seja bom ou ruim) e escrevo assim: curto e grosso, sem rodeios.

Tenho um problema com romance. Além de ser lenta na leitura, confundo as personagens. Se bobear, tenho que fazer esquema escrito com os nomes e parentescos: esse aqui é filho desse, tio daquele... o que me leva a não ler romance, a não ser forçada pelas circunstâncias, como no colégio.

Mas com Peixe Morto será diferente. Comprei por livre, espontânea e orgulhosa vontade e comecei a ler ontem. À noite. Estou naquela parte em que o narrador e o pescador vêem o corpo na lagoa. Me deu um medo... e hoje, mal posso esperar para me recostar em minha singlebed e continuar a emoção! Além do suspense, o que as primeiras páginas me causaram e, certamente, ao longo da leitura da obra só tende a aumentar, foi uma alegria em ver a Pampulha da sua época "áurea", dos cassinos, bailes e políticos glamourosos. Aquele bairro é bem Belo Horizonte! Porque BH é bem Niemeyer e ele é bem Pampulha... hoje em dia, não acho legal caminhar na lagoa. Sinto que o bairro (é uma sensação minha) é sujo, vejo uma poeira pairando, como vejo em Governador Valadares e outras cidades pequenas calourentas. Mesmo assim, ainda há a igrejinha de São Francisco que é um bibelô! Uma obra de arte que me fascina.

Está tudo lá, no livro da foto. E ainda consigo perceber os traços do estilo do autor, uma delícia.

Então, umas fotos para relembrar O quinze.
Eu declamando; Margarida, Evandro e eu: três dentistas no sarau (Marina atrás acenando).