sábado, 30 de outubro de 2010

Um bom filme

Coração louco mostra uma atração forte entre uma mulher e um homem e os tormentos da vida adulta, sem tapação de sol com peneira, com bastante intensidade e olhos nos olhos, além de uma trilha sonora muito boa.


Eu gostei demais do filme e fico ainda mais fã da atriz Maggie Gyllenhaal, a qual comecei a admirar em Secretary.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

reflexão em momento de fechamento de ciclos


Monografia finalizada e me deparo com uma discussão inesperada. Lidar com classificações não é interesse da minha pesquisa, cujo tema é a leitura de uma obra escrita e ilustrada pelo artista plástico Fernando Vilela. Reconheço a importância dos conceitos para nortear os estudos e ajudar na compreensão das questões investigadas nas diversas áreas do conhecimento. Porém, meu objetivo foi procurar fundamentações teóricas para meu delírio ao experimentar essa obra. Tendo perto de mim a sabedoria[1] generosa da minha orientadora, viajei intertextualmente e aterrissei quando ela sinalizou. Por outro lado, fui impulsionada a desenvolver ideias explicitadas em apenas uma linha, quando mereciam um parágrafo. 

O movimento de sair da minha faculdade de origem, a FALE-UFMG (Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais) e entrar em outras unidades, outras bibliotecas, outras festas, auditórios, banheiros, salas e cantinas sempre fez parte do meu modo de viver a graduação. Entrei muitas vezes “na Música” e “na Belas Artes”, onde, inclusive, cursei disciplinas, como “Introdução à Intermidialidade”, em que cada aula era ministrada por um professor diferente. O trajeto de grandes ladeiras e escadarias que levam à FaE (Faculdade de Educação) foi percorrido durante os quatro anos, para chegar aos meus locais de estágio. Me interessa tudo o que acontece no campus: apresentações musicais sob a tenda da praça de serviços, espetáculos teatrais no gramado da reitoria, comunicações de grandes nomes como Maria Bethânia e Mia Couto e até mesmo a ocupação da reitoria pelos estudantes, registrada por mim em três posts[2] de meu blog da época e de cujas assembleias tomei parte. 

Dessa forma, me deslocar, ser nômade, sair da minha zona de conforto nunca foi um problema. Ao contrário, é o que busco. Romper não me faz estremecer, a não ser de avidez pelo novo. Conto, então, brevemente, que saio da casa de meus pais aos dezoito anos para morar em uma cidade (aliás, um estado) onde não possuo nenhum familiar sequer. Tive uma única briga com minha mãe, que queria que eu usasse salto alto e eu respondi que gostava de arrastar o pé descalço no chão do forró. Não tive medo de “chutar o balde”, como se diz, e cancelar meu registro no CRO (Conselho Regional de Odontologia) após sete anos de profissão e ir fazer Letras. Além disso, saí novamente da casa de meus pais, que nesse momento – e ainda hoje – moravam em frente ao mar para entrar em um apartamento sozinha com minhas roupas e sapatos, sem geladeira, sem fogão, e dormir sobre um edredom. A relação com meus pais sempre foi de amizade e respeito, mas eu queria minha liberdade e neles encontrei apoio.

A maior parte de meus amigos é artista e eu os conheci em um sarau, antes de ir fazer Letras. São ceramistas, poetas, artistas plásticos, designers, músicos, escritores. São Tiemi Daiten, Penha Schirmer, Renato Fraga, Cida Ramaldes, Alfredo Albuquerque, Danuza Menezes, Pedro Gazu, Bith... com eles conheci Manoel de Barros, Duchamp, Viviane Mosé. Ampliei meu mundo, me apaixonei ainda mais. Com eles dancei, falei e ouvi poesia, chorei de rir, conversei a sério, viajei para Itaúnas, Caraíva, Sana. De carro. Ouvindo música. Lendo versos como o do para-choque de caminhão que passou por nós na estrada da Bahia: “Ser livre é pouco para mim. O que eu quero é nem ter nome”.

Portanto, encaixar qualquer forma de arte em prateleiras, gavetas, escaninhos, etiquetando-as, para mim é uma forma de repressão, de restrição. Tudo se comunica, especialmente no século XXI, em que muitos paradigmas já caíram por terra e as diversas mídias se inter e intra relacionam. 

Quando um artista afirma que a ilustração é literatura, de imediato eu concordo. Depois paro, penso, lembro de artigos e livros com os quais aprendi e lanço minha indagação. Talvez tenham ouvido como se fosse uma asserção. Fato é que comecei hoje a pensar o diálogo entre a imagem e a palavra (texto visual e texto escrito) como um casamento. Duas pessoas com características próprias que se unem por afinidades, para conversar, dialogar, discutir, namorar, trocar, compreender, curtir. Mas elas têm sua individualidade, atenção! Uma não é chamada pelo nome da outra. Nesse sentido, o paralelo que faço é para dizer que o texto – entendido aqui em sentido amplo, sem considerar apenas o texto escrito com o código alfabético, mas pensando em vídeo, cinema, imagem, entre outros – visual, quando chamado de literatura, talvez esteja sendo submetido à hegemonia atribuída pela sociedade ocidental à cultura escrita, ao texto verbal. No meu modo de entender, após algumas leituras teóricas para produção da monografia, as artes possuem suas características peculiares e formas, tanto de serem realizadas como de serem recebidas, haja vista que não vemos todas as imagens da mesma forma; há os diferentes “trajetos do olhar”, conforme a obra com a qual se tem contato, como nos ensina Rui de Oliveira.

Saber o que é literatura, por exemplo (se escreve com maiúsculas ou minúsculas?), não foi uma grande preocupação de minha formação e sobre o assunto só ouvi no primeiro período do curso, ao ser introduzida à teoria literária, ou adiante, quando a pergunta surgiu em uma bela aula de literatura estrangeira de língua portuguesa. Talvez a explicação mais clara tenha sido dada pela Professora Graça Paulino, ao explicar que, para saber a resposta, vejamos se, em determinado texto, o que predomina é o discurso literário, entre os discursos que ali permeiam.

Deixando tal tarefa (a de classificar) para outros pesquisadores, torno a relacionar arte com liberdade. Ao fazer isso, logo me vem à mente novo turbilhão de palavras com as quais poderia ligar (ou link-ar?) a literatura: alternativa, diversidade, periferia urbana (nome de disciplina em curso com a Profa. Vera Casa Nova), resistência[3], erotismo, imagem. Ôpa! Imagem. Imagens. As palavras, tratadas no photoshop do escritor, por meio da técnica e da labuta com elas travada, como escreveu Drummond no poema “O lutador”, podem produzir imagens. 

No entanto, há certos acontecimentos que não podem ser descritos em palavras, como já diz a música cantada pelo Rei (ou Robertão, como queiram): “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras, não sei dizer” e a de Zeca Baleiro: “eu não sei dizer / o que quer dizer / o que vou dizer”. Assim, as imagens, com suas características próprias, aliadas ao traço pessoal do artista, expressam ideias e proporcionam sensorialidade. Aí está um ponto fundamental de minha interrogação sobre a atribuição do nome “literatura” ou “texto literário” à ilustração: a potencialidade para provocar sensações. Buscando a distinção entre os significados de “literatura” e “lirismo”, entre “lírico” e “literário”, mesmo que em uma fonte não especializada, mas procurando mesmo um sentido corrente, encontro:
LITERATURA Sf 1 arte de compor ou escrever trabalhos em prosa ou verso com o objetivo de atingir a sensibilidade ou a emoção do leitor ou do ouvinte 2 disciplina que tem por tema as obras ou os autores literários 3 atividade literária 4 conjunto de obras literárias
LIRISMO Sm 1 subjetivismo poético 2 emotividade; ardor 2 caráter subjetivo ou romântico da arte
LÍRICO Adj 1 relativo à expressão dos arrebatamentos pessoais e entusiasmos subjetivos 7 aquilo que é poético ou emotivo
LITERÁRIO Adj 1 relativo às letras e literatura em geral, ou à cultura relacionada com a arte da palavra 2 de literatura 3 de obras de literatura 4 de pessoas cuja atividade está ligada à literatura 5 que denota aptidão para a literatura
(BORBA, 2004, p.848-849)

Diante do significado desses termos, tendo a compreender a ilustração como um texto visual lírico, uma composição artística cujo feitio traz para si, como na literatura, referências pessoais, técnica, subjetividade, estética... então, imagem e texto verbal, juntos, dão como resultado uma produção de arte em que vários estímulos são proporcionados ao leitor, por meio de recursos expressivos responsáveis pelo efeito que a obra produz no ser humano.


[1] De acordo com o Dicionário UNESP do Português Contemporâneo, organizado por Francisco Borba (2004): SABEDORIA Sf 1 habilidade de ver com clareza o que é verdadeiro e certo, e de fazer julgamentos corretos com base nessa habilidade 2 capacidade de avaliar adquirida pelas experiências ao longo da vida 3 conhecimento formal acumulado 4 alto grau de conhecimento; instrução vasta e variada; erudição 5 conhecimento justo das coisas; razão 9 comportamento sábio; bom senso 10 eficiência; competência; traquejo. (os exemplos foram omitidos).
[3] en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas
(Paulo Leminski)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Brasil, tô preocupada com você.


Quando desci do ônibus, logo na primeira esquina, em frente à biblioteca pública infantil, no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte, um senhor bastante nervoso entregava panfletos aos passantes. O modo como ele me ofereceu o papel – grosseiramente, sem contato visual, ao mesmo tempo em que discutia com uma senhora  – me fez perguntar antes de aceitar o panfleto: “O que é isso?”.
−É da vagabunda.
 Eu fiz um olhar de indagação.
−A vagabunda que quer ser presidente do Brasil.
Como eu recusasse a receber o panfleto, o homem me dirigiu ofensas, bastante exaltado.
A senhora que discutia com ele, funcionária pública na biblioteca, foi descendo a rua comigo e ficara também muito espantada. Ela ligou do celular para pessoas de seu trabalho para avisar da presença hostil daquele senhor em frente ao estabelecimento mencionado. Um homem visivelmente alterado, que xingava as pessoas na rua em defesa de seu candidato à presidência do país. Não cheguei a ler nada do que estava escrito, mas a senhora leu um trecho que dizia algo como: “Dilma, assaltante de banco” e outras coisas mais.
Segui meu caminho, totalmente abalada, com uma vontade incontível de chorar, tamanho choque havia levado. Cheguei ao Museu Histórico Abílio Barreto, onde eu assistiria a uma palestra com o ilustrador Rui de Oliveira, mas como estava ainda cedo para o começo do evento, entrei na igreja Santo Inácio de Loyola para me acalmar. Chorei bastante e pedi paz.

Isso aconteceu ontem, terça-feira, 19 de outubro de 2010.

O que me entristece é o modo como a política é discutida no Brasil. Superficialmente, sem seriedade alguma, de forma dogmática, sem espaço para a opinião do outro, sem democracia. De maneira não republicana.

sábado, 16 de outubro de 2010

não tenho medo da morte

Não tenho medo da morte, eu só não queria sofrer. Não queria ter uma morte sofrida, no hospital, por exemplo, ou sentindo dores com um câncer, algo assim. Quero uma morte como a dos meus 4 tios paternos. De repente.
Não dou conta das pessoas que se preocupam com longevidade, das reportagens ensinando receitas para viver mais. Eu lá quero ficar aqui durante 100 anos? Eu, não. Quero ir embora lá pelos...80, acho que tá bom. Eu só quero é viver bem enquanto durar. Evitar os médicos, os pronto-socorros, as clínicas, os hospitais...ai, que terror! Para isso, sim, vou procurar me cuidar. Mental e fisicamente. Caminhar, pedalar, nadar, dançar, ouvir música, estudar, rir, amar, conversar, ir ao cinema, comer chocolate (nem vem que faz bem!)...enfim, me cuidar, né?

Aí, ao pensar nisso, eu lembro da música da Bebel Gilberto.





Tranquilo

Levo a vida tranquilo
Não tenho medo do mundo
Não tenho medo do mundo
Não vou me preocupar
Não vou me preocupar

Tranquilo
Levo a vida tranquilo
Não tenho medo da morte
Não tenho medo da morte
Não vou me preocupar
Não vou me preocupar

Que passe por mim a doença
Que passe por mim a pobreza
Que passe por mim a maldade, a mentira e a falta de crença
Que passe por mim olho grande
Que passe por mim a má sorte
Que passe por mim a inveja, a discórdia e a ignorância

Tranquilo
Levo a vida tranquilo
Não tenho medo do mundo
Não tenho medo do mundo
Não vou me preocupar
Não vou me preocupar

Que me passe
A doença que me passe
A pobreza que me passe
A maldade que me passe
Que me passe
Olho grande que me passe
A má sorte que me passe
A inveja que me passe
A tristeza da guerra

Tranquilo
Levo a vida tão tranquila
Não tenho medo do mundo
Não tenho medo da morte
Não vou me preocupar
Não vou me preocupar

domingo, 10 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

ocupação urbana


Estou lendo Cidade Ocupada*, para uma disciplina de Letras: Literatura brasileira e periferia urbana, que curso nas noites de sexta. Quando bati o olho na capa do livro, imaginei que fosse um romance, talvez policial, e que a cidade estaria ocupada pelo crime, pelo tráfico de drogas. Imaginei ainda que o autor fosse um morador da periferia, como o Renegado, que esteve em uma de nossas aulas lá na fale-ufmg. Mas a ocupação de que trata a obra é artística e o escritor é professor universitário com pós-doutorado. Ainda não terminei de ler, mas algumas questões interessantes me chamaram a atenção, como a produção de algo que seja a própria diferença, algo que não enverede pela homogeneização, tão presente no mundo contemporâneo, apesar de tantas transformações tecnológicas e ideológicas pelas quais a civilização já passou.

Ontem, por recomendação da genial Profa. Vera Casa Nova, fui ao duelo de MCs no viaduto Santa Tereza. Um parêntesis: ainda bem que tenho amigas que curtem programas alternativos, porque a Bi, minha irmã, faz muita falta nessas horas! Bom, fomos lá e foi fantástico! As duplas sobem ao palco e fazem um minuto (se não me engano) de 'repente' ou improviso. As falas são sempre relacionadas a questões políticas e sociais como a segregação de classes, a voracidade capitalista etc. O público é convidado a votar por meio de aplausos no melhor de dois e depois de todas as apresentações, há uma final. Quando tudo acaba, começa a exibição de dança hip-hop no meio de uma roda formada no chão, entre a plateia.

Boas fotos podem ser vistas aqui 
Lembrando um documentário ao qual assisti e vou procurar na internet, quanto mais as pessoas com maior poder aquisitivo se separarem do mundo real, da 'parte feia' da cidade e da cultura popular, mais a cidade ficará violenta porque nada estará sendo feito para, de fato, fortalecer a segurança. Isto se consegue, a meu ver, entre outros fatores, com valorização e afirmação da diversidade e aproximação com os que não têm ou quase não têm oportunidades de acesso à educação, à informação de qualidade, às novas tecnologias de informação e comunicação, enfim, aos alimentos do corpo e aos alimentos da alma, como a arte.




*PIRES, Ericson. Cidade Ocupada. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
Foto: daqui

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

terra da prosa

...vontade de escrever um pouco no blog...

me veio à cabeça como tema, uma experiência que tive esta semana (anteontem). O Censo passou aqui em casa e deixou um bilhetinho, para entrarmos em contato, uma vez que ninguém foi encontrado no domicílio. Pois bem. Eu saía para recarregar o cartão de ônibus (BHBUS) quando vi, na calçada, em frente àquela casa antiga, vizinha ao meu predinho, a recenseadora. Perguntei: "foi você que deixou..." e tal. E ela respondeu: "qual é o número? Sim, fui eu mesma..." etc. Então, ela me aplicou o questionário ali mesmo. Na rua, como um bate-papo entre conhecidas. E – agora não sei por que cargas d´água – nós conversamos um tempão, mesmo com o sol que estava fazendo na cabeça e com os transeuntes passando. Estávamos ali, rente à varanda da casa antiga, cuja moradora ela também não encontrou, proseando gostosamente. Havia uma mulher dentro de um carro estacionado...ela olhava...eu pensei: "ela deve estar pensando o mesmo que eu". Porque, em um determinado momento, comecei a pensar sobre a cena. Duas pessoas que nunca se viram, uma com uniforme do IBGE, ou seja, em período de trabalho, "trocando ideia".

E isso é tão comum em Belo Horizonte...a meu ver, é um dos traços positivos da "província", como queiram alguns (há os traços negativos, certamente). Por exemplo, chegamos, eu e meu marido, a um estabelecimento comercial outro dia e tanto a proprietária como as funcionárias nos trataram como se fôssemos amigos. Há pouco tempo, eu não embarcava nesse jeito de ser, ficava na minha, mesmo se a pessoa "puxasse papo". Hoje, já me sinto à vontade e procuro corresponder à abertura do outro (é claro, desde que não seja um visível mala de plantão). Vi também uma cena em que uma senhora, sentada no ponto de ônibus, convidava a outra para se sentar. Eu pensei: "são conhecidas". Mas depois percebi que não, a senhora que fazia o convite nunca tinha visto a outra na vida. Achei muito engraçado! E pensei: "só em Belo Horizonte, mesmo!"

O título da postagem, portanto, não tem a ver com um gênero literário, mas com a cultura da oralidade e com os costumes do interior. Como dizem, aqui é uma roça grande.